Nem sempre notamos, mas a especificidade com que usamos as palavras diz grande parte do que queremos dizer. Ir à praia é diferente de ir para a praia, provar uma sobremesa é diferente de comer uma sobremesa. Há dois meses que estou a fazer Erasmus em Delft, e falar da experiência começa por dar atenção a isso mesmo, ás palavras. Erasmus é um programa de intercâmbio internacional. Podia frequentar-se, podia participar-se e no entanto, faz-se. Fazer Erasmus é a expressão que o tempo e uso tornaram corriqueira. Dizê-lo dessa forma é grande parte do que há para dizer. Fazer é construir, criar. Estou a fazer Erasmus e estou a construir algo. Estou a construir laços, estou fazer amigos e amigas, a criar uma vida num país diferente. Estou a construir saudades de Portugal e talvez até saudades do Técnico (sentimento que há uns tempos achava só existir no final do arco-íris, ao lado dum pote d’ ouro).
Erasmus é diversidade. Quem não gosta de fazer Erasmus diz que está em Erasmus. O que no fundo também dá que pensar. Dizer estar em Erasmus é avisar que se está num espaço físico comum, como dizer que se está em casa do Zé Manel ou dizer que se está em Freixo de Espada à Cinta. Cria-se um veículo de partilha, um lugar que não existe no mapa mas existe no tempo. Esteja onde estiver, nos próximos cinco meses estou em Erasmus. Toda a gente em Freixo de Espada à Cinta se conhece, tal como todo o par de pessoas que partilha um “estou aqui em Erasmus” legitima a vontade de se conhecer. É bom.
Claro que conta o país que se escolhe. Nesse campo e falando da Holanda, a experiência quotidiana ensina algumas coisas: os transportes públicos são óptimos, há comboios toda a noite e os estudantes não pagam bilhetes. Chamam café a uma espécie de água com uma espécie de corante castanho. Todas as vias na cidade se estruturam em função da bicicleta. É seguro, barato, saudável, bom, obrigatório até, andar de bicicleta. Das primeiras regras de trânsito que aprendi: raramente os carros têm prioridade. Faz mais frio, chove. Fuma-se sem preconceito o que se quer e conhece-se o que se fuma. A Universidade tem condições materiais fantásticas. A cerveja é cara e em holandês, tirar uma imperial traduz-se em despejar espuma num copo.
Houve um tal Erasmo de Roterdão que escreveu o Elogio da Loucura bem antes de saber que no futuro, havia de ser o seu nome, e não o livro, a dar desígnio a um programa que elogia, de entre tantas outras coisas, a loucura. Por muito que se adornem as palavras e por muito que se varie na forma de dizer, para mim fazer Erasmus está a ser um bocadinho dessa coisa a que chamam loucura. Dela, há tanto mais para viver do que para escrever.
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