IVG
Luísa Godinho

De frente para o hemiciclo, ao som dos argumentos pró e contra o aborto, veio-me à memória a senhora desconhecida que descera a avenida à minha frente, na tarde anterior, saco plástico na mão, andar magoado com a vida. A hora do jantar aproximava-se e os parlamentares prosseguiam na sua empolgante esgrima de argumentos - não tão fervorosamente como em 1982, quando se debateu a primeira lei do aborto, segundo dizem - em defesa e ataque da «interrupção voluntária da gravidez» (IVG), expressão oficial para essa calamidade, que é segunda causa de morte materna em Portugal e que todas as mulheres deste país conhecem pela pequena e simples palavra de aborto.

Nunca, desde as calorosas discussões da velha «Constituinte», a Assembleia da República se vira envolta num tema tão melindroso e polémico que baralhou as cabeças de muitos deputados, notoriamente mais habituados a negociar votos e cair em demagogia do que propriamente a tomar, segundo uma escolha ideológica e a própria consciência, uma determinada opção política. Um a um, olhei nos olhos esses homens comuns tocados pela divina prudência, tentando descobrir aquilo que sempre procuro quando vou à Assembleia da República: onde reside a sua realeza, o que têm eles a mais do que qualquer homem ou mulher deste país para decidir em seu nome as questões triviais do quotidiano do Estado ou, «à la limite» sobre um tema tão íntimo e profundo como é a vid e a morte.

Depois de oito horas sentada na cadeira de pau no hemiciclo, regressei a casa sem a mínima pista que me indicasse onde residia essa sua particularidade. Mais: muitos deles - alguns até ilustres desconhecidos - são mesmos mais medíocres do que o anónimo cidadão. Incarnam aquilo que mais repúdio nos merece na natureza humana - o mais completo vazio de ideias ou falsidade de sentimentos. Com a agravante de esconderem essa mediocridade atrás de um discurso fácil e barroco, que não engana só os tolos. Sublinho: muitos deputados. Serei injusta se não fizer jus a outros - uma minoria certamente - que sabem o que são chamados a ali desempenhar, que são dignos de falar por milhares de anónimos cidadãos - ainda que a figura da representação suscite sempre reticências. Esta tarde na Assembleia da República deixou claro quem é quem, estabeleceu barreiras, confrontou os nossos deputados com as questões centrais da vida democrática: o que deve ser o Estado, o que entende por vida, quais os limites da democracia representativa.

E trouxe de novo à baila algo já tão esquecido - por vezes até posto em causa - como são as ideologias. Votar a favor ou contra a liberalização do aborto é decidir, mais do que em qualquer outra matéria, segundo os parâmetros ideológicos da esquerda ou da direita. Não há lugar para meios termos. Liberalizar significa despenalizar, pôr nas mãos de cada mulher - e, porque não?, de cada homem - a decisão de trazer ou não ao mundo o embrião que começa a desenvolver-se. É dizer que o Estado não tem o direito de impôr a ninguém uma solução que considera eticamente correcta, a sua própria moral , numa questão tão íntima como a vida e a morte. É decidir pela liberdade. É também optar, pôr em princípio material: o de preferir abrir portas a algo que todos - inclusivé a própria esquerda - repudiam, como o aborto, a prolongar a morte e deficiência a que muitas mulheres são lançadas por não poderem abortar nas mãos de pessoal qualificado e em locais clinicamente aceitáveis. É, como alguém disse, «ser contra a hipocrisia». É ser de esquerda. Votar contra a liberalização do aborto é achar que o Estado deve decidir por cada mulher que queira interromper uma gravidez, deve definir em que termos ela o pode fazer e dizer que sanção deverá sofrer caso o faça. É dar poder aos deputados para legislarem sobre a matéria, segundo um modelo de «bom» e «mau» e impô-lo aos cidadãos. É impôr uma moral a seguir. É também colocar-se numa atitude eminentemente espiritualista e achar que o real não é o ponto de partida para o legislador, que deve pautar-se apenas pela pureza dos princípios.

Por isso, aquela tarde parlamentar, em que os deputados - pelo menos os mais corajosos - votaram em liberdade de consciência, permitiu definir quem está de que lado. E trouxe surpresas. Como ver ilustres socialistas a votar «contra» e ilustres social democratas a darem o «sim » até mesmo aos projectos da JS e do PCP favoráveis à liberalização «a pedido da mulher». Conclusão elementar: os partidos representam zero. Nem uma ideologia, nem sequer uma linha de pensamento. Lancem-se questões de fundo para a mesa e é ver os deputados saltarem de lugar, baralharem as bancadas, como alegres marionetes de um teatro para crianças. PS e PSD albergam no mesmo habitat sensibilidades de esquerda e de direita, gente que crê na moral do Estado e gente que pugna pela consciência de cada cidadão. Gente que parte do real para fazer lei e gente que vai beber aos valores para definir o quadro jurídico. Gente que acha que todos devem nascer desde que concebidos e gente que acredita que a vida só o deve ser se fôr digna.

O que é que isto tem a ver com a senhora do saco de plástico? Que se calhar para ela, que dorme na rua, pede pão em frente do «Extra», se encolhe dentro de uma caixa de papelão para passar a noite sem frio e olha o passar dos autocarros no mais resignado silêncio, se calhar para ela essa vida a preservar a todo o custo, não é um milagre assim tão valioso como a querem fazer crer.

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