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O Perfume
- História de Um Assassino, Patrick Suskind -
Ed. Presença
Levi Lúcio
O
Perfume é, sem dúvida, um romance estranho.
Tendo como palco uma excelente reconstituição
da França do século XVIII, modos e hábitos
sociais, a história transporta-nos através
da vida de Grenouille, um homem que nasceu diferente,
viveu diferente e morreu diferente. Dotado de um olfacto
extraordinário, o personagem vive numa dimensão
alternativa, utilizando o nariz onde o comum dos mortais
utilizaria os cinco sentidos. Mais inquietante ainda
é o facto de ele próprio ser desprovido
de odor corporal, o que leva a sociedade a encará-lo
com um misto de indiferença e horror.
Todo este mundo irreal e de certa
forma sobrenatural acaba por ser um pretexto que o autor
utiliza engenhosamente a fim de explorar as paixões
básicas que movem a humanidade: o erotismo, o
poder, a necessidade de afirmação e a
procura de si próprio, retratada aqui na busca
do perfume ideal. E embora esta seja a história
de um assassino, o próprio nome o indica, os
crimes acabam por diluir-se na globalidade do livro,
como que desculpados pela pureza das intenções
destituídas de qualquer tipo de moralidade. Essa
frieza e resolução tornam-se mesmo assustadoras
quando comparadas com as vidas das outras personagens
que cruzam a história, de certa forma mesquinhas
ao lado da de um monstro. A simplicidade com que Grenouille
encara a vida é desarmante, e embora saibamos
que se trata de uma aberração da natureza,
consegue pôr em causa o conceito de vida e o porquê
de viver. Enquanto os outros se entretêm em existências
superficiais procurando apenas garantias materiais e
sociais, ele quer saber quem é, e mesmo a adoração
de todos de nada lhe serve quando chega à conclusão
de que nunca se poderá descobrir. É a
procura infrutífera da razão da existência
que é debatida, pondo a nu inconsistências
e perguntas por responder. É por este motivo
que o fim deixa um travo amargo, já que não
se retiram conclusões e só a dúvida
fica no ar.
Trata-se de um livro que deve ser
consumido de mente aberta, deixando de lado preconceitos
e juízos de valor, porque só assim se
poderá apreender a beleza de cariz mórbido
que se desprende das páginas e a crítica
subjacente: quanto somos frágeis e dependentes
do nosso eu animal.
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