O Retardatário
Jorge Páramos

Thomas Girard, investigador em supercondutores da Universidade de Lisboa, é peremptório: «Já deviam ter dado este prémio há muito tempo».

Vitaly Ginzburg

«Tenho netos e ao menos posso dar-lhes o prémio». Finalmente, após anos de espera, a «sorte» sorriu a um desencantado Vitaly Ginzburg. Muitas vezes candidato ao prémio, o cientista russo de 87 anos, investigador no Instituto Lebedev de Moscovo, arrecada este ano o Nobel da Física. Partilha esta honra com o russo-americano Alexei Abrikosov, de 75 anos, investigador do Argonne Laboratory no Illinois, e o anglo-americano Anthony Leggett, de 65 anos, investigador da Universidade de Illinois. São estes os eleitos pela Real Academia de Ciências sueca, que recompensa os seu trabalhos nas áreas da supercondutividade e superfluidez.

A supercondutividade consiste na ausência de resistência eléctrica à passagem de corrente. Tal foi observado pela primeira vez em 1911 no mercúrio, pelo físico holandês Kamerlingh Onnes, e desde então encontrado em outros metais puros. Inicialmente confinada a temperaturas da ordem dos -270 ºC, o fenómeno obrigava à utilização de hélio líquido para atingir tão baixas temperaturas. Só em 1986 se alcançou a supercondutividade a «altas temperaturas » (até aos -150 ºC), utilizando ligas metálicas exóticas. Este desenvolvimento permitiu utilizar azoto líquido, com ponto de ebulição de -196 ºC, em vez de hélio, que evapora aos -268.4 ºC e tem um preço semelhante ao do whisky!

Abriam-se assim perspectivas de aplicação prática da supercondutividade, setenta anos após o seu nascimento.

Actualmente, os supercondutores são aplicados em áreas como a medicina, na ressonância magnética, onde são utilizados para gerar os intensos campos magnéticos necessários; Também nos transportes, através dos comboios de levitação magnética, capazes de atingir os 500 km/h e já em exploração comercial no Japão. No futuro, serão fundamentais para a construção de reactores de fusão nuclear, tidos como a grande fonte de energia do futuro.

A superfluidez é, tal como a supercondutividade, um fenómeno que ocorre a temperaturas extremamente baixas (um a dois graus acima do zero absoluto). Um gás sujeito a estas temperaturas perde toda e qualquer resistência ao movimento interno das suas partículas, exibindo comportamentos quânticos a uma escala macroscópica (tal como acontece nos supercondutores). Tem-se um superfluido: um líquido sem viscosidade, que sobe as paredes do recipiente em que se encontra e onde um redemoinho pode girar durante anos. Esta ausência de viscosidade pode ser comparada à resistência nula de um supercondutor.

Está na hora, está na hora!

Alexei Abrikosov Anthony Leggett

Thomas Girard, investigador principal do Advanced Detectors Group da Universidade de Lisboa, envolvido em projectos relacionados com supercondutividade, é peremptório: «Já deviam ter dado este prémio há muito tempo». Salienta a importância do trabalho sobre transições de fase, realizado nos anos 50 por Ginzburg e Laundau, este já laureado com o Nobel em 1962. Os cientistas estabeleceram matematicamente uma analogia entre a passagem de um metal do estado condutor habitual para o estado supercondutor com outras transições de fase mais habituais, como a mudança do estado sólido para o líquido.

Esta generalização do conceito de transição de fase aos supercondutores era insuficiente, pois faltava ainda uma descrição do seu comportamento microscópico. Foi necessário esperar por Bardeen, Cooper e Schrieffer, a trabalhar nos Estados Unidos, que formularam a teoria BCS. Esta explica a supercondutividade com base nos chamados «pares de Cooper»: pares de electrões que, ao deformarem a rede cristalina do metal, se atraem mutuamente; como consequência, a corrente eléctrica flui sem resistência. Este trabalho rendeu aos seus autores o Nobel da Física de 1972.

No entanto, esta é apenas uma teoria parcial, explicando apenas os supercondutores de tipo I. Estes diferenciam-se dos de tipo II por não aceitarem no seu interior campos magnéticos (o chamado efeito Meissner). A supercondutividade de tipo II foi compreendida por Alexei Abrikosov, Thomas Girard, investigador em supercondutores da Universidade de Lisboa, é peremptório: «Já deviam ter dado este prémio há muito tempo». Prémios Nobel O Retardatário n Manuel Carvalho A cura de muitas doenças poderá estar mais perto após os estudos de Peter Agre, 54 anos, e Roderick MacKinnon, 57 anos, os dois investigadores americanos laureados com o prémio Nobel da Química de 2003. Segundo a Academia das Ciências sueca, que atribui anualmente o prémio, «as descobertas e os estudos estruturais e funcionais dos canais na membrana celular» permitiram «abrir os olhos sobre a existência de uma fantástica família de máquinas moleculares: canais, comportas e válvulas, todos eles necessários para o funcionamento da célula». O Professor Manuel Prieto do Departamento de Química do IST, fundador e ex-presidente da Sociedade de Biofísica, explica que todas as células do corpo humano estão contidas dentro de uma membrana, formada por duas camadas de lípidos, praticamente impermeável. No entanto, «a membrana possui canais especiais, que permitem a passagem de certas substâncias». Já desde há muito tempo que se suspeitava da existência de estruturas na membrana específicas para o transporte de água. No entanto, foi Peter Agre que em 1988 conseguiu isolar a proteína e através de estudos com membranas artificiais comprovou que eram os «canais de água» que à muito se procurava. Deu-lhes o nome de Aquaporinas (poros de água). «A onda de calor do Verão passado provocou muitas mortes devido a problemas de desidratação e de sensibilidade ao calor, que estão relacionados com a eficiência das Aquaporinas», descreve o professor. «A sua acção também é preponderante nos rins, pois cerca de 70% da água da urina primária é reabsorvida». Química impulsiona a medicina Estes canais «permitem a passagem das moléculas de água muito rapidamente (cerca de 1019 por segundo)». Têm também uma elevada selectividade, impedindo a passagem dos iões H+ através da criação de um campo eléctrico de polaridade positiva. «Roderick Mackinnon teve uma carreira invulgar, pois só começou a investigar aos 30 e a sua formação base é de medicina », realça o professor. Contudo, o estudo que apresentou em 1998 sobre o canal de iões KcsA K+ surpreendeu a comunidade científica. Neste trabalho, a estrutura atómica dos canais é determinada com um método inovador, envolvendo cristalografia por raios-X. Segundo Manuel Prieto, «estas passagens através da membrana possuem características muito interessantes»: fecham ou abrem mediante sinais da célula e possuem um filtro de iões que em simultâneo permite a entrada de iões potássio e impede a passagem dos iões sódio de dimensões muito menores. Estas correnn Jorge Páramos tes eléctricas nos tecidos do corpo humano, constituídas por um fluxo de iões através das células, permitem a propagação de sinais pelo sistema nervoso e o funcionamento dos músculos. Peter Agre conseguiu, em 1988, isolar a proteína que regula a entrada e saída de água do interior da célula; esta era procurada pelos cientistas desde o século XIX. Peter Agre, nasceu em Northfield, no Minnesota. Fez o doutoramento em Medicina, em 1974, na Escola Médica da Universidade John Hopkins, em Baltimore. Roderick MacKinnon, é natural de Burlington, próximo de Boston; concluiu o doutoramento em medicina, em 1982, na Escola Médica de Tufts. um estudante de Ginzburg e Laundau. Este desenvolveu um modelo totalmente novo, tendo depois usado a teoria de transições de fase dos seus mestres para o suportar. É por este trabalho que é agora premiado.

A teoria que veio do frio

A superfluidez foi descoberta no início dos anos 30 pelo físico russo Kapitsa num gás de hélio-4 (isótopo do hélio com dois neutrões e dois protões), a temperaturas de -270 ºC. A explicação deste fenómeno foi dada por Laundau, tendo justificado o seu Nobel de 1962. Mais tarde, a teoria desenvolvida com Ginzburg permitira compreender a passagem de um líquido normal para superfluído como uma transição de fase.

Nos anos 70, observou-se que também o hélio-3 se torna superfluído a temperaturas ainda mais baixas. Esta descoberta não era totalmente inesperada, dado que a teoria BCS, mesmo aplicada fora da supercondutividade, dava indicações nesse sentido. O complexo comportamento deste novo superfluído só foi explicado com sucesso por Anthony Leggett, então a trabalhar na Universidade de Sussex, Reino Unido, justificando agora o seu Nobel.

Dada a relevância do seu trabalho, é de espantar que só agora os três físicos recebam o prémio. Este atraso só revela, segundo Tom Girard, a pouca importância dada ao ramo da supercondutividade, tida como mera curiosidade de laboratório. Mas sugere que, devido ao impacto das suas aplicações médicas actuais, tal estatuto possa estar a mudar. E realça que, devido ao complexo jogo entre campos magnéticos e os «pares de Cooper», um supercondutor é muito útil como modelo em miniatura para simular no laboratório as condições que imperaram no início do Universo. Sem dúvida, um Nobel na área ajudará a despertar o interesse pelo tema.

O prémio, no valor de 1,145 milhões de euros, será divido igualmente pelos três contemplados. Vitaly Ginzburg ironiza: «Para mim, claro que é muito dinheiro – tal como para qualquer russo que não seja um vigarista ou magnata». E é com alguma mágoa na voz que afirma: «um jogador de ténis ganha este valor num só jogo»...


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